Renuncia da carne e do osso, do vital.

Renuncia da carne e do osso, do vital.

Por muito tempo sem escrever, volto se dedicando a uma simples questão: a da necessidade de um pai. Claro, não de um pai específico; aquele idealizado, alfa e patriarcal que todos falam e a televisão engorda, mas, aquele que cumpre uma lei, uma brecha no psiquismo de cada um. Já adianto que não tenho a habilidade psicanalítica de Freud em desvendar um caso clínico, construindo (e descontruindo) ideias. Nunca quis! Tampouco possuo a habilidade voraz de Arthur Shopenhauer em insultar aforismos da vida. Acredito que faço mais o papel de atrapalhar essas ideias ou reafirmá-las.

Vamos lá.

Você, caro leitor, se teve em sua vida um pai presente, um alfa em que tomou conta de tudo e do lar. Aquele que cuidou das dispensas do armário da cozinha e do quintal. Que se preocupou com você e suas notas. Que cuidou, colocou você no colo e te deu carinho. E que, também, comeu a sua mãe (refletiria assiduamente se for só sua mãe, mas isso é outro assunto). Considero você uma pessoa de sorte! Agora caro leitor, se você não teve nada disso, mas seu pai sempre se manteve quieto ao seu lado e nunca fez algum movimento, ou, cálculo que supriram suas necessidades como filho, tenha paciência, você também teve sorte.

Podemos encaixar um pai ausente ou presente aqui e ali, seja por “ter feito isso” ou “por ter feito aquilo”, mas, também, aliás, por “não ter feito nada”. Sempre os encaixaremos (o pai – o tendo ou não) em alguma lacuna exigente.. Sempre teremos uma lacuna exigente! A figura paterna, que é uma lei para um psiquismo saudável, se faz presente em qualquer dimensão visível de sua vida. Qualquer um que tenha feito análise a sério, sabe o quanto a figura de um pai é presente em nosso psiquismo e o quanto precisamos dessa referencia ou, psicanaliticamente falando, dessa identificação.

Meu caro leitor, infelizmente não há uma fórmula de conseguirmos, enquanto homo sapiens, viver sem esta figura. Talvez, tenhamos a sorte de crescermos tristes, depressivos e vulneráveis as doenças de funcionamento psicológico (ou não!) sem a proteção, intervenção, carinho e amor de um pai. Talvez, tenhamos a sorte (também) de ter tido um tio, um avô, um vizinho, ou mesmo uma mulher que você presenciou pegando a inchada e fazendo aquilo que comumente um macho faria (não acredito nisso, mas é o que dizem). Talvez tenhamos a sorte, também, da resiliência: ser um tutor do próprio Ego, ler bons livros, trabalhar e criar filhos, sendo um bom pai, resistindo à ideia não ter tido um. O que quero dizer é que sempre teremos uma referência, uma identificação, algo em que possamos nos apoiar para suprir essa lacuna. Se tiver um pai presente e em movimento, tudo é mais fácil. Mas se não tenho, me apoiarei em alguém, algo, real ou representativo. E isso é algo extremamente objetivo. Qualquer um que negue isso é um mentiroso. Doa a quem doer!

As religiões não ficam fora dessa. Se o indivíduo não teve a figura paterna, ou seja, um pai enquanto carne e osso, ele resolve com aquele que é chamado de Deus-Jesus (O pai do céu). Vemos nas letras das músicas evangélicas o quanto o nome pai é exaltado. O quanto essa figura imaginária substitui, tão perfeitamente, a figura carne e osso. Nas religiões de influência africana, como o candomblé temos, por exemplo, o ‘Pai Cicrano’, ‘Pai Furlano’, à lista é imensa! Por tanto, toda religião tem um líder real, aéreos nos céus e imersos nos pensamentos, sei lá eu. De maneira que este líder cumpre o papel de suprir lacunas, buracos, que uma figura paterna deixou ausente durante a vida. Chega de descrição!

Portanto, caro leitor, se você se deparar com aquele chato ou aquela chata que diz que vive bem sem o pai, devido ter tido brigas, desentendimentos. Por ter sido abandonado ou abandonada. Por carregar cruzes internas de ressentimentos, mágoas, raiva e certa distancia do pai, fuja! Fuja do pensamento de que esta pessoa esta certa dela e, mais honestamente falando, de que ela esteja pensando por si mesma. É uma mentirosa de mão cheia! Claro, elas têm seus motivos. Motivos, às vezes cabíveis, às vezes mesquinhos. Mas, ainda, é uma mentirosa profissional pra si mesma. Demitir-se da ideia, do afeto, da necessidade de um pai onipresente na vida, seria um suicídio. É matar a sede na saliva.

A ação de elevar o espirito humano, penso, esta em aceitar essas pequenas questões. Toma-las para reflexão. Canso de perceber que quando há falácias do tipo “não quero meu pai por perto”, “longe”, “tenho mágoa dele” “nunca tive um pai presente” há, do outro lado dessas falas, um movimento e cálculo de negar algo puramente da nossa espécie; nego-me, friamente, em não falar com meu pai, mas não me canso de elogiar meu tio. Não há pra onde escapar! Não pregar na parede de casa um quadro de pacificidade em “Ame seu pai”, uma vez que, às vezes odiá-lo lhe ajuda levantar da cama, mas, aceitar a condição bicho-homem de dependência da figura paterna, isso sim!

Essas questões humanas mostram o quanto precisamos tomar conhecimento de algumas condições puramente atávicas, ou seja, ancestrais. De aceita-las! Nós, precisamos do outro [nesse caso, o pai] para opor-se, crescer, aprender, amar e odiar. Se não tenho, complica. Mas, também, como é do homem, se não tenho, crio formas, maneiras, jeitos de lidar com isso. Isso é maravilhoso. Graças a Deus! Mas negar a carne e osso é muito mesquinho e, uma brecha a qual não creio que, nós humanos, entramos. Renunciar da carne e do osso, do vital é uma farsa que funciona!